20º postal - Olá, falas cassubiano?

Escrito por 6.8.18

Kaszuby, maio 2018

Sonhamos sobre países distantes. Desejamos tudo o que nos parece exótico, diferente. Imaginamo-nos nas praias paradisíacas com ananás para o pequeno almoço e coco para o jantar...

Dei conta que quando mais longe viajo, menos interessada estou no meu próprio país. O país grande, bonito e com muita riqueza cultural. Por esta razão a partir deste ano acima de tudo começamos a conheçer a Polónia.

Kaszuby é uma região fantástica para aqueles que gostam de observar o mundo a andar de bicicleta. Várias reservas naturais, poucas cidades e a proximidade do mar fazem que apesar de bicicleta e uma tenda não se precisa nada mais para ser feliz. 

Pouco se sabe que cassubianos... não falam polaco. Bem, sabem língua polaca e falam-na fluentemente, mas a língua nativa deles é língua cassubiana/cassúbia - o único dos antigos dialectos eslavos da Pomerânia que sobreviveu. O cassubiano antigamente era chamado só de dialecto, mas desde 2005, é oficialmente considerado língua regional, que se ensina nas escolas cassubianas e até leciona na universidade. O cassubiano é quase incompreensível para mim - e portanto parece tão intrigante. 

Para estes que aprendem ou falam polaco uma avnentura interessante pode ser ouvir Radio Kaszëbë, o radio mais popular em cassubiano: http://radiokaszebe.pl/godome-po-kaszebsku/ 

Divirtam-se!

Manter a casa limpa sem limpar (muito) - um guia para trabalhadores, mães e preguiçosos

Escrito por 23.7.18
Estou nesta situação feliz que apesar de ser trabalhadora e uma pessoa preguiçosa em matéria de arrumar as coisas, também sou mãe. Ter crianças para uma pessoa que detesta limpar é a melhor desculpa de todos os tempos. Basta dizer: "estava a limpar, mas tenho um filho..." e até a maior inimiga ou a vizinha do andar de baixo (esta que olha sempre pela janela e sabe mais sobre a minha vida do que eu própria) e, às vezes, até a sogra param de se queixar da minha falta de vontade em limpar. 

No entanto, o que é que fazer quando o problema se torna mais complexo como, por exemplo, não ter filhos e portanto não poder acusar ninguém? Ou, mais simples, não gostar de limpar, mas ao mesmo tempo não querer viver numa casa que parece estar sempre depois de um furacão? 

Existem várias opções de lidar com isso: 

1. Ter muito dinheiro e contratar um serviço de limpeza
Provavelmente a melhor solução. Mas se lês este texto, nem menos provável é que precisas outras soluções para esta situação.

2. Investir num chão escuro
Não há nada que me arrependeria mais do que não tomar a decisão de mudar o chão claro na cozinha enquanto fizemos a renovação. Por isso cada um pingo (raramente doce), cada um cabelo caído, cada um "nada" tem um tamanho dum elefante adulto. Ainda pior, dum elefante achatado no chão. 

Então se só possível, invistam num chão escuro - é suficiente aspirá-lo de vez em quando para manter as aparências de que está limpo. Sei muito bem o que digo. Todo o resto dos meus quartos têm um chão escuro.

3. Comprar aspirador automático
Ainda melhor seja comprar um aspirador que consiga aspirar sem nossa ajuda. Não é tão preciso como um humano, mas se tivesse que escolher: ter casa completamente suja ou ter casa semi-limpa sem esforço mínimo – com certeza escolheria o segundo. 

4. Manter tudo em caixas
Este é uma solução que exige de nós mais esforço intelectual. Desde logo, é necessário inventar uma boa tática: classificar todas as coisas que possuímos. Em seguida deve-se colocá-las em várias caixas. Recomendavelmente - em armários.

Para quê fazer isso? Para poder não pensar nada-de-nada depois. Automação do processo de arrumar coisas arruma a nossa vida ao mesmo tempo. E deixa-nos pensar sobre prazeres ao mesmo tempo também. 

5. Fazer amizade com o minimalismo...
...e deitar tudo – TUDO – o que realmente não precisamos para sobreviver. 

Seria muito mais fácil limpar casa quando se tem 20 coisas em vez de 2000(0), não seria?

O que liga a linguística e a programação?

Escrito por 31.1.18
Não sei como é em Portugal, mas na Polónia quando alguém diz que é um humanista, a primeira ideia que chega a cabeça dos ouvintes é: ele só consegue ler livros, talvez escrever algo, e não sabe nada de matemática nem qualquer outra ciência lógica ou biológica. No mesmo momento desaparece totalmente a ideia bonita de humanismo que mostra o homem como a criatura pensada – que pode ampliar os seus horizontes em varias áreas, para a qual não existe um conceito de limite ou de impossibilidade. Portanto não estive muito surpreendida ao encontrar um cepticismo grande enquanto disse: Quero mudar a minha profissão! O meu objetivo será aprender programação!

De vez em quando vale a pena começar a fazer algo novo. Para refrescar a mente e para não parar de descobrir o mundo das varias maneiras. Uma transformação da área linguística para a tecnologia da informação não é nenhum passo muito estranho. Apesar das aparências, uma não fica tão longe de outra. Sinto que só alargaria as competenções novas. 


O testador de software é como o revisor

Passei anos a rever vários tipos de textos – os textos mais ou menos complexos, escritos melhor ou pior. Os textos sobre ornitologia, medicina, arquitetura, linguística... e muito outros. Mas o meu trabalho não significava apenas procurar os erros. Significava estar atenta por todo o tempo, saber onde e o que procurar e conseguir fazer isso tudo tão rápido como bem.

Procurar os erros em software é uma coisa semelhante: deve-se estar atento por todo o tempo, saber onde e o que procurar e conseguir fazer isso tudo tão rápido como bem. 

São só matérias diferentes nos quais se trabalha: a primeira, o texto, é estática e a segunda, o software, é dinâmica. Além disso, há mais métodos de testar programas, mais pode acontecer, mais é imprevisível.   

O programador é como o linguista

Porque é que nós utilizamos qualquer língua? Qual é a maior razão para falar com outras pessoas? A resposta é: fazemos isso tudo para se comunicar. A única diferença é que uma língua natural serve para se comunicar entre homens e que uma língua de programação – para se comunicar com computadores. 

Ambos tipos das línguas têm a sua sintaxe, a sua lógica, terminologia e regras que as mantêm em ordem. Portanto quando se gosta deste tipo de “brincadeira”, fazê-la pode dar muito prazer, não importa de quem a faz: o linguista ou o programador. 

E vocês, veem semelhanças ou diferenças entre línguas naturais e línguas de programação? Eu vejo muitas e vou escrever sobre elas na próxima vez.


19º postal - O pão fermentado

Escrito por 21.1.18

Ucrânia 2011

Ir ao leste da Europa e não provar o kvas (квас) é como se nunca fosse à Ukrânia, Belarus ou Russia. Isto é uma bebida tradicional cujo o melhor sabor vem de – também tradicional – barril. O barril pode-se encontrar em cada esquina, até numa pequena cidade qualquer. 

As primeiras menções de kvas vêm já de século X do Principado de Kiev. Além disso, escreve-se sobre ele em obras famosas como Os Irmãos Karamazov, Anna Karenina ou Guerra e Paz – é uma historia bastante longa e importante para as terras de leste.

O kvas é produzido num processo da fermentação de pão. Para o preparar basta água, pão, um pouco de açúcar ou frutas e levedura. É perfeito em dias calores quando se sente sede porque sacia-o muito bem. Nem todos gostam desta bebida, mas vale a pena prová-la pelo menos por curiosidade. É como a coca-cola, mas menos doce e menos artificial, é mais suave.

18º postal – Comer caracóis não é nada fácil

Escrito por 5.1.18

Portugal 2016

Foi a primeira vez quando comi caracóis. 

Ao início eles olharam para mim com um sofrimento grande pintado nos seus rostos. Antes até não suspeitava que eles podem ter a qualquer expressão facial. Mas tiveram. A tristeza avassaladora estava a distorcer os seus lábios... Pela minha cabeça passou uma grande vontade de fugir. Escapar pareceu a única solução desta situação.

Mas fugir sem provar caracóis? Só porque eles estão a olhar para mim? Fechei os olhos, tentei imaginar o mar com todas as paisagens bonitas deste Verão em Portugal. 

O sabor estava dominado por sal. E por nada mais, porque o corpo dum único caracól é tão pequeninho que é realmente difícil distingui-lo enquanto se come. Apesar disso, a usar um palito, muito corajosamente e nem menos persistentemente estava a remover moluscos de cascas. As pessoas chegaram ao restaurante e sairam dele, devorando os pratos de caracóis em 3 minutos. Eu acabei comer depois de 30 minutos.

Na verdede, esta foi uma refeição muito emocionante.

5 razões pelas quais não vale a pena fazer resoluções de ano novo

Escrito por 27.12.17
Fazer dieta, evitar o stress, deixar de fumar (ou de beber café), ser feliz. Mudar de emprego, ser mais activo, ganhar bom dinheiro, passar todo o tempo livre com a família... E tu, qual é a tua lista das resoluçoes de ano novo?

Li num sítio: “Criar metas para o ano novo motiva-nos a mudar, ajuda-nos a ter propósitos e objetivos para correr atrás.” – É uma bonita mentira. Uma mentira por causa só de duas palavras: “ano novo”. Porquê? Porque não vale a pena fazer resoluções de ano novo. Pelo menos por 5 razões:


1. São irreais

Vou repetir: fazer dieta, evitar o stress, deixar de fumar (ou de beber café), ser feliz. Tudo a partir do mesmo dia, do 1 de Janeiro. Com certeza a última coisa que sentisse depois de cortar todos os meus prazeres seria uma felicidade. E a primeira seria o stress se agora me alimento realmente bem e que sem parar penso sobre o café delicioso e aromático.

As resoluções de ano novo têm uma desvantagem básica: são mais os desejos grandes do que possibilidades verdadeiras. E claro: todos nós devemos sonhar, mas para fazer o nosso sonho se tornar realidade, temos que pensar sobre ele em condições de vida real. 


2. Não têm nenhuma justificação

Isso é verdade. Tomas alguma decição e fazes uma resolução só porque alguém tinha decidido 435 anos atrás que o calendário vai parecer como parece até hoje. Qual é a diferença entre 1 de Janeiro e 17 de Outubro? Qual é a diferença entre segunda-feira e quarta-feira? Qual é a diferença entre às 6.41 e às 12.00? Nenhuma. Somos nós que adoramos cortar a ideia abstrata do tempo em milissegundos.


3. Vais realiza-las no máximo por 2 semanas
Se já pensaste porque a tua paciência para realizar as resoluções dura nem mais do que duas semanas e ainda não encontraste nenhuma resposta, vê ponto 2. E ponto 1 também. Sem sentir que fazer isso a partir de ano novo tem sentido e sem plano razoável apenas o masoquista continua a agir. 

Então: se vais agir só por duas semanas, nem vale a pena começar nada.


4. Toda a gente faz resoluções
É sempre assim: quando todos são responsáveis por algo, ninguém se sente responsável. Quando fazes resoluções no mesmo tempo como todos os teus amigos, tios, filhos – como todo o mundo – é muito fácil até não começar a fazer mais nada do que só falar. 

Muito mais fácil será também ir para uma cerveja em vez do ginásio enquanto todos vão tirar o dia “de folga” na sua dieta e na evolução da condição física. A segunda cerveja, a terçeira, quarta e quinta serão apenas formalidades.


5. O novo ano não começa na segunda-feira
Oops. O ano 2018 começa na segunda-feira. Mas afinal vais acordar às 11.13 e esta não será nenhuma hora completa. Só podes realizar os seus planos a partir das 12.00. Contudo ainda resta muita comida depois da festa e alguém tem que a comer. Bem. A dieta deve esperar até amanhã. Até amanhã então podes estar sob stress que não estás na dieta. Portanto podes fumar – é compreensível, estás enervado. A partir de amanhã.

A partir de amanhã... espera um momento. Amanhã vai ser terça-feira, metade de semana. Tens que esperar mais seis dias. Para a próxima segunda-feira.


***
Mas calma, não te preocupes. Se realmente queres mudar alguma coisa, começa as mudanças

17º postal - As luzes de Viena

Escrito por 21.12.17

Viena, dezembro 2011 

Ouvi que Viena em dezembro é uma das cidades mais iluminadas na Europa. Talvez – não tenho uma experiência tão grande que me deixaria comparar Viena com muitos outros lugares nesta época de ano.  Mas o mercado de Natal lá é realmente bonito. Embora quase nunca compro coisas nesses tipos de mercados, às vezes gosto de visitá-los. E vê-los, pelo menos na internet (por exemplo olhem aqui). E vocês? Gostam? 

Feliz Natal e muitas prendas bonitas!

O inverno em Portugal e na Polónia

Escrito por 8.12.17
Não por acaso esta época do ano chama-se «Inverno». A similaridade com «o inferno» é obvia. E não por causa da temperatura. Não, não, não. Quem vive na Polónia, sabe bem que neste país durante o inverno a última coisa que se pode esperar é o calor tropical. Aliás, em Portugal também. No entanto, o inferno pode significar mais do que só temperatura alta. O inferno começa na cabeça enquanto o inverno está a chegar.  

Tanto em Portugal como na Polónia passar o inverno não é nada fixe. É tão ruim e tão ruim. Em qualquer lugar que estejas, deves lembrar da tua fragilidade que aparece – num instante – em contacto com o frio. A única diferença entre estes dois países é que passar o inverno em Portugal é mais fácil fora e na Polónia – em casa. 

Já chegou. Está a nevar na Polónia. Flocos de neve caem com alegria cobrindo a terra com uma colcha branca. E sim, tenho que admitir que isso parece bonito – até ficar em casa e não precisar sair dela. Infelizmente, ficar em casa com o bebé de nove meses de idade que tem sempre as baterias carregadas e sem parar quer subir a tudo também não é nada fácil. Então saímos. 


Começo a vestir-me quatro camadas de roupa. Enquanto faço isso tento vestir simultaneamente o meu filho. Ele chora. Eu tento alimenta-lo. Ele chora – não está com fome. Simplesmente não gosta de se vestir. Nem gosto eu. Ele chora mais alto. Visto a quarta camada da minha roupa. Volto a vesti-lo. Ele chora. Começo chorar e eu. O suor está a escorrer pelo meu nariz. Ainda o casaco dele. E luvas. E sapatos dele. E os meus sapatos. Choramos ambos... Finalmente está tudo feito. Depois 50 minutos de preparações estamos prontos. Lá fora o vento frio faz-me lembrar que estou suada e que logo posso ficar constipada. Corro um risco.

Com calma. Sem miúdos não é nada melhor. Apesar de que vestir só dura 10–15 minutos, o vento sopra na mesma maneira. A rua está igualmente escorregadia. Além disso, tráfego nas estradas está paralisado, mãos congelam em 30 segundos, o sol se põe às 15.00 e a única coisa sobre o que se sonha é adormecer em um sono de inverno numa casa quente. 

Ao contrário em Portugal. Lá durante o inverno não existe até o conceito da “casa quente”, muito menos a casa quente materializada. Já sei que para não congelar durante a noite em casa portuguesa deve-se ou ter um saco-cama de penas ou conhecer bem a técnica de se envolver firmemente em cinco cobertores. Não me sinto muito convencida com a ideia não ter nem metade de um aquecedor só porque o inverno em Portugal dura menos do que, por exemplo, na Polónia. Ou porque é menos suave: isso não é verdade. Em Portugal humidade é maior, o que de fato faz que muitas vezes senti-me lá como estivesse no frigorífico. Congelar na sua própria casa é uma forma de se mortificar, definitivamente.

Então – o que escolho? O verão.





16º postal – O Mar

Escrito por 1.12.17

Portugal 2009

É uma das primeiras impressões de Portugal. O Mar que, de verdade não é um mar qualquer – é um oceano infinito, ou seja, tem o seu fim, mas ele fica tão longe como só pode ficar o lado oposto duma quinta parte do mundo. 

Não sou uma pessoa apaixonada pela água – se pudesse, a maioria do meu tempo passaria nas montanhas. Mas há lugares e momentos inesquecíveis por causa das emoções que os acompanham. Especialmente lá, onde se experimenta a vastidão do espaço ou dos fenómenos. Paradoxalmente, lembrar-se de quão frágil e pequeno é um homem não sobrecarrega, todavia ajuda a aproveitar o facto da existência. 

A toda aventura com Portugal começou à beira do mar. 

15º postal – Alfabetos

Escrito por 21.11.17

Armênia 2014

Não há acordo sobre a quantidade de línguas que se fala no mundo. Uns dizem que existem 6 mil delas, outros – que 7 mil. Esta diferença aparece porque não existem nenhumas regras rigorosas e universais que deixassem distinguir precisamente uma língua própria de um dialecto. Aliás, elas não podem existir – a linguística não é uma ciência assim como por exemplo a matemática. Trata-se de um “organismo vivo” que se desenvolve constantemente e muda-se muitas vezes de uma maneira difícil de prever.

A coisa mais fácil é contar alfabetos. No entanto, deve-se lembrar que a palavra “alfabeto” significa menos do que nós normalmente expectamos. O alfabeto é um sistema de escrita, que usa letras para marcar – mais ou menos – os mínimos segmentos de uma palavra. Neste sentido escrita ideográfica ou escrita silábica não são alfabetos. Mas, mesmo que queiramos contar todas das maneiras de apresentar um discurso num papel, também isso seria mais fácil do que fazer o mesmo com línguas.

O alfabeto arménio foi idealizado no século V e parece como padrões de roupas ou vermes pequeninos, que estão a ir a direções diferentes. Para alguém que o vê pela primeira vez ele é difícil para memorizar. Felizmente ás vezes alguns textos arménios são traduzidos por outro alfabeto.

Como escrever um texto com jeito? – uma receita

Escrito por 16.11.17
Muitas vezes ouço como os meus alunos dizem: “Esqueça! Não vou escrever nenhum texto. Não tenho jeito para isso.” – e nunca sei se eles realmente pensam desta maneira, se talvez sejam preguiçosos por natureza. Em ambos os casos pode-se dizer que é o jeito deles, mas ambos são também diferentes um do outro. Num primeiro caso trabalha-se com o aluno para ele confiar em si. Num segundo caso é difícil fazer qualquer coisa – quando alguém tem o jeito assim, não vai escrever nada. Vai sempre repetir: „Este assunto é uma chatice! Não me faz jeito escrever coisas tão aborrecidas!”

A verdade é que escrever é como correr, cortar o cabelo, conduzir, programar, cozinhar. Ao início deve-se saber um pouco. Contudo depois, para fazê-lo bem, tem de se praticar tanto quanto possível. Logo se vê, que quanto mais regularmente se escreve, mais regularmente as palavras necessárias estão a jeito.

Para escrever um texto com jeito basta:
  1. Pensar bem sobre o assunto e dar um jeito aos pensamentos, para criar um primeiro  – já arrumado – conspecto do texto.
  2. Ter jeito com cada uma das frases. Ter cuidado com o que se escreve ajuda nem só estar mais preciso no que se está a fazer, mas também aprender mais rapidamente como combinar as palavras.
  3. Depois escrever – olhar por todo o jeito do texto. Às vezes é mais fácil modificar o feitio da escritura quando esta já está feita desde o início até ao fim.


E lembre-se:
  1. Não se esqueça ter a sua caneta e uma folha de papel sempre a jeito.
  2. Trabalha constantemente, mas não pense que num instante alguém, depois ler o seu texto, vai gritar com admiração: Este texto é ao jeito de (aqui insere o nome de qualquer escritor grande)! Não tem importância nenhuma ser semelhante a outra pessoa. O mais importante é ter o seu próprio estilo.
  3. Cada um de nós tem dias melhores e dias piores. Portanto tal como atlets que às vezes dão um jeito á alguma parte do corpo porque estão cansados, um escritor – ás vezes também – escreve um texto que não tem jeito
  4. Não tenha medo dizer: „Este assunto não me dá jeito!”. Não tudo pode ser conveniente para todos.
  5. Pode-se escrever vários tipos dos textos. Por exemplo aqueles que servem em jeito de desculpa, agradecimento, fazer desejos, etc. Não se esqueça sobre esta variedade!

*
Agora tenho que pedir vocês para fazerem-me um jeito e escreverem mais exemplos dos expressões ou maneiras de usar a palavra “jeito”!

14º postal – Salkantay trek

Escrito por 12.11.17

Peru 2016

Machu Picchu é um dos símbolos da America do Sul – quase todos que decidam visitar este continente pensam o que podem fazer para verem a santa cidade dos Inkas, mesmo que devam atravessar a America toda para atingir o seu objectivo.

Há várias possibilidades para subir à maior atração do Peru – uma delas chama-se Salkantay trek. Não se precisa de ter nenhuma autorização para fazer este caminho, nem guia local ao seu lado, nem carteira grande com dinheiro – o que não é tão óbvio no negócio lucrativo que se chama Machu Picchu. Aqui, felizmente, basta uma tenda, uma aclimatação para altitude e depois de 4–5 dias chega-se ás Aguas Calientes. 

Salkantay trek junta uma caminhada em condições de alta altitude (o ponto mais alto é Abra Salkantay, 4 640 msnm) com um passeio pela floresta tropical. Por isso não há necessidade de estar nos Andes por muito tempo para conhecer basicamente a especificidade desta cordilheira. 

Os portugueses aos olhos da Anita. Parte 2: Relaxa!

Escrito por 6.11.17
Quando fico nervosa e começo fazer uma tempestade num copo de água, quando todo o mundo me irrita por pouca razão, os portugueses não respondem à mesma irritação. Dizem só uma palavra: relaxa!

Apesar de morar na Polónia fria, ao lado dos ursos polares, esquimós; na Polónia cujas casas têm que ser equipadas com aquecimento por causa das geadas do século, sou muito mais impulsiva do que todos os portugueses que eu conheço. A sério! Talvez não conheça um grupo suficiente representativo da sociedade portuguesa, se calhar também não é tão difícil estar mais relaxado do que eu. Mas aos meus olhos em Portugal vive um povo muito relaxado. Muito mais do que em qualquer país da União Europeia. 

Devia dizer que isso é muito bom: menos stress é igual a ser mais saudável, feliz e tal. Devia. Contudo, quando se está a esperar por uma reação dinâmica, por uma explosão de gestões e palavras e vê-se em vez disso um oásis de paz, a primeira impressão é... uma grande surpresa. 


Um dos meus professores contou a história da sua juventude. Ele vivia entre dois bairros, cujos os seus habitantes não gostavam muito uns dos outros e os jovens tinham lutas frequentes lá. O professor abomina a luta, portanto jamais queria participar em nenhuma. Mas nem tudo pode ser evitado. Uma vez ele estava a ir à biblioteca, quando alguns inimigos de outro bairro apareceram.

Queres lutar? – perguntou um deles.

O professor respondeu sem pensar:
Está bem, podemos. Mas primeiro diz me quando ocorreu a batalha sob Chocim?

Inimigos foram embora.


Fiquei similarmente surpreendida, quando vi os portugueses relaxados a esperar horas por alguém atrasado (já escrevi sobre pontualidade aqui: link), a preparar comida sem pressão mesmo que estejam cheios de fome, a voltar para casa no meio da noite embora tenham que se levantar cedo ou tenham imenso trabalho para fazer, a não ter a certeza o que é que vai acontecer no próximo dia, a ter sempre tempo para conversar, beber café ou cerveja, para viver devagar. 

Relaxa! – esta é definitivamente uma das palavras mais frequentes que ouvi em Portugal.

13º postal - Acampamento

Escrito por 3.11.17

Grécia, o monte Olimpo, 2015 

O pior é o momento de levantar-se muito cedo, quando ainda está frio, às vezes escuro e a última coisa que se quer fazer é sair do saco de dormir. Deixar a “zona de conforto” para ficar confrontado com um ar demasiado fresco exige uma força de vontade muito forte, mas vale a pena fazer tanto esforço.

Gosto de dormir em hotéis – são tão bonitos, modernos. Têm água quente, mais instalações do que eu preciso, bom serviço e pequenos-almoços saborosos. Contudo quando tenho que fazer a escolha entre um hotel e uma tenda, a tenda quase sempre ganha. 

Acampamento é um dos sinônimos da liberdade. A liberdade cheira a natureza, a possibilidade de ficar por uma noite num lugar qualquer. O rio, do qual se tira água para cozinhar e para lavar os dentes. O amanhecer e o anoitecer. O vinho bebido de um copo de lata. O prazer sem necessidade de pagar por ela. São momentos raros numa vida cheia de obrigações. 

Por isso mesmo gosto de acampar.

Os portugueses aos olhos da Anita. Parte 1: pontualidade

Escrito por 10.10.17
O que é que podia fazer ao esperar por alguém que está atrasado? 
A. Olhar para frente e observar as pessoas a andar. 
B. Ouvir as conversações dos outros.
C. Ler um livro / brincar com smartphone. 
D. Nada.

O que é que eu normalmente faço?
E. Estou a olhar nervosamente para o relógio e fico mais nervosa com cada minuto que passa. As 10.00 são 10.00, não 10.15, 10.30 ou 12.00. 

Um mês em Portugal mudou muito esta perspetiva. 

A primeira coisa que aprendi lá era que – em geral – combina-se uma hora de encontro só porque existe o conceito de tempo e a terminologia para o explicar e especificar. Então: se eles existe, não custa nada utilizá-lo, pois não? O que é importante, às vezes pode ser até útil, por exemplo para precisar mais ou menos em que período do dia um encontro pode acontecer. Combinamos às 16.00? Ótimo! Isso significa que provavelmente vamos encontrar-nos a uma hora qualquer depois das 16.00, provavelmente não antes das 17.00. Mas talvez também não depois das 20.00. É fácil, não é? 


No início a minha cabeça limitada por contar o tempo com segundos não podia concordar com esta confusão, esta falta de ordem. Ou seja: a impaciência que me fez muito irritada não me deixava de tentar entendê-la (já escrevi sobre impaciência: link). Como é possível estar sempre atrasado e sempre bem disposto ao mesmo tempo? E nunca pedir desculpas pelo atraso? Contudo, apesar de não gostar nada disso, rapidamente percebi que para o meu bem tenho que me adaptar a isso. Se o mundo não se vai mudar para mim, sou eu que tenho de me acostumar a ele. Logo então comprei alguns livros, comecei vir aos encontros atrasada por meia hora e o tempo que ainda faltava para a chegada dos amigos  passava a ler. 

Toda a percepção de tempo em Portugal, que eu conheci, em geral parece diferente do que na Polónia. Há o tempo, mas os limites dele são muito mais... flexíveis. Não se o conta tão restritivamente, com tanta pressão. Quando a festa em Portugal começa, na Polónia acaba. Especialmente no meio da semana, no meio do inverno (os estudantes são uma exceção). Todos têm o tempo mesmo que ninguém o conte. Ou não contar significa simplesmente ter.

12º postal – À boleia

Escrito por 26.9.17

É uma forma de viajar muito simples. Basta ficar ao lado de estrada, ter confiança noutra pessoa e tentar apanhar o carro que está a passar. Ainda vale a pena conseguir comunicar minimamente.

Lembro-me muito bem de um guia turístico da Turquia: o livro grosso, cheio de imagens e informações sobre comida turca, que incluía também um dicionário polaco-turco. Era muito pesado – este facto importava-nos porque viajamos durante cinco semanas com todas as nossas coisas às costas. Felizmente, rapidamente descobrimos que o dicionário é fantástico para aqueles que descansam à beira mar nos resorts, não para nós, e pudemos rejeitá-lo com alívio. Infelizmente, tivemos que coletar palavras úteis para a nossa viagem mais uma vez. 

Desde então, quando vou para qualquer lugar só à boleia, preparo sempre uma lista de frases úteis para esta forma de movimento, como: Vamos de... a...; É grátis?; Podemos acampar aqui?; Temos a tenda; Somos polacos; Sou professora; Turquia, Armênia, Georgia, Portugal, (outro país)... é lindo!, numerais e outras palavras como sim, não, ontem, hoje, amanhã, dia, semana, dormir, comer, visitar. Apesar disso, sempre, sei dizer bom dia, obrigada e adeus. 

Não se precisa de muito, mas o conhecimento pelo menos de 10 palavras não apenas pode ajudar, mas também passar o tempo agradavelmente.

O aspecto gramatical na língua polaca

Escrito por 22.9.17
Em geral há dois tipos de problemas, que podemos encontrar ao aprender alguma língua. Ambos resultam do mesmo: da especificidade do sistema linguístico, que já conhecemos. Contudo diferem entre si à escala em que eles aparecem. A primeira escala pode ser chamada “local”. Por exemplo: o maior problema dos alemães é a fonética polaca; os etíopes não têm quase nenhum problema com a fonética, mas muitas vezes é difícil para eles agarrar o conceito total da construção da frase; os russos estão a lutar com falsos amigos e calques. Isso é uma generalização – sempre se vai encontrar alguém que será uma exceção. A segunda escala é antes “global” e refere-se às questões populares na maioria dos estudantes da língua polaca. Estes são, entre outros, os números, a declinação e o aspecto gramatical.

Já escrevi sobre os números (link) e a declinação (link). Desta vez o que me interessa é o aspecto, uma maldição para os estudantes estrangeiros e uma pura beleza para os nativos. Porquê beleza? Porque o aspecto dá várias possibilidades de jogar com as palavras, no sentidos delas e da forma de toda a frase.


O aspecto em polaco – teoria...
Muitos séculos atrás para falar sobre passado usava-se em polaco 4 tempos: simples e complexos, perfeitos e imperfeitos. Mas esta situação mudou-se rapidamente e nós podemos observá-la apenas nas obras mais antigas da língua polaca. O aspecto tinha “vindo”, ao trocar os velhos tempos e determinou as nossas mentes a mudar também a maneira de falar sobre ações. Era uma das maiores mudanças nas línguas eslavas em toda a sua historia. 

O conceito de aspecto é, em teoria, fácil. Usamos dois tipos de verbos: ou perfeitos, ou imperfeitos. Verbos perfeitos são utilizados quando falamos sobre passado ou futuro e significam uma ação feita, terminada. Verbos imperfeitos mostram uma ação que continua, que está in statu nascendi. 

Exemplos dos verbos przeczytać e czytać

– Wczoraj przeczytałem książkę. – Ontem li um livro.
– Jutro przeczytam książkę. – Amanhã lerei um livro (até ao fim).

– Wczoraj czytałem książkę. – Ontem estava a ler um livro.
– Dziś czytam książkę. – Hoje estou a ler um livro. 
– Jutro będę czytać // czytał(a) książkę. – Amanhã vou ler um livro (talvez só uma página, talvez noventa). 


...e prática
Em prática aparecem muitos problemas, mas dois deles são os mais típicos.

  • 1. Os polacos substituem formas perfeitas com imperfeitas quando falam sobre o futuro.

Sim. Eu própria as vezes esqueço-me de ser „correta” e uso construções imperfeitas do futuro em vez de perfeitas, mesmo que queira apontar uma ação finalizada: Jutro będę robiła obiad (em vez de zrobię). Jutro będę szła do dentysty (em vez de pójdę). Desta forma não consigo precisar suficientemente bem o sentido das minhas palavras e deixo a compreensão delas para o contexto mais amplo no qual elas foram ditas. Não sei porque no futuro as formas imperfeitas são tão comuns. Posso só suspeitar – o futuro jamais é certo, então é mais seguro e natural dizer que planeio estar a fazer alguma coisa do que com certeza fazê-la até ao fim.   

Em cima escrevi a palavra „correta” entre aspas, porque regras são uma coisa e a língua falada é outra. Portanto a linha entre estar correto ou errado é muito fina. Talvez algum dia escreva mais sobre este assunto.

  • 2. Existem dezenas de verbos perfeitos ligados a só um verbo imperfeito


Assim: pić – wypić, napić się, dopić, przepić, upić się, spić, opić... E cada um deles tem outro sentido e é utilizado no outro contexto. 
Isso é o pior. Não, desculpa. Ainda pior é que (aqui estou a responder à pergunta mais comum dos meus alunos), infelizmente, não conheço nenhum livro nem dicionário que acumularia todos estes verbos. Uma das culpas pode ser simples – possibilidades de construir verbos perfeitos em polaco são... quase infinitas.  


Como se aprender este monte de verbos perfeitos?  
Tal como se come um elefante. Conhecem esta receita? Para comer um elefante precisa-se de comê-lo peça por peça. Então a melhor solução é começar desde início, ou de pares de verbos que são chamadas “pary aspektowe” – pares aspectuais. 

Os exemplos de pares aspectuais podem ser: a) com prefixo numa forma perfeita czytać – przeczytać, pisać – napisać, robić – zrobić, jeść – zjeść, pić – wypić, b) com infixo  numa forma imperfeita dawać – dać, kupować – kupić, c) formas diferentes dos verbos brać – wziąć etc. Vale a pena usá-las tantas vezes quantas se precisarem para ficar fluente nisso.

Depois seria bom aprender prefixos mais comuns e os sentidos que eles têm quando se os adiciona aos verbos. Por exemplo: wy- em verbos como wyjść, wynieść, wypaść, wylać etc. mostra uma direção/um sentido “mover fora”; do- em verbos como dopisać, dopić, doczytać, dopowiedzieć significa “finalizar pelo adicionar algum movimento” etc. Há excepções, nem tudo é tão obvio, um prefixo pode dar mais do que só um sentido e perder-se nisso tudo é muito fácil. Mas conhecer formas perfeitas mais complexas e exigentes do que só pares aspectuais mostra o nível muito avançado do polaco. Não existe outra solução para sabê-los do que ouvir, falar, ler e não ter medo de tentar construir estes tipos de verbos sem parar. 


O bem sempre ganha [exercício de livro]

Escrito por 7.9.17
Estou a trabalhar para enriquecer o vocabulário português e utilizar mais do que dois tempos do indicativo. Portanto as vezes vou publicar textos pouco espertos, mas concentrados num concreto problema linguístico.
Abaixo uma história com uso das expressões idiomáticas que contêm alguma parte de corpo na sua estrutura.


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Era uma vez uma menina bonita, a Madalena. Morava numa cidade grande, exatamente a mesma em que quase ninguém conhece até o seu vizinho mais próximo. Vivia a vida normal: era uma estudante na universidade local e, às tardes, trabalhava num restaurante italiano como a empregada de mesa. Mesmo que não fosse uma pessoa que fala pelos cotovelos, ela prestava atenção a si. Era devido aos seus grandes olhos verdes, que pareciam dizer: Nunca, nunca dou com a língua nos dentes, podem confiar em mim. Portanto todos os clientes do restaurante gostavam mesmo de ser servidos por ela, a saber que a menina não vai fazer ouvidos de mercados, sobre o que eles falam. Apesar de estar muito ocupada, a Madalena sempre conseguia ouvi-los e responder-lhes agradavelmente.

O dono de restaurante apreciava a sua atitude e, como não era unha de fome, pagava-lhe  mais do que aos outros empregados. O que é muito fácil de deduzir, rapidamente os outros começam a ter dor de cotovelo por isso. Um bom exemplo podia ser a melhor amiga da Madalena, que se chamava Alice. Não era menos bonita, mas o olhar dela era muito mais frio e inacessível. Desde o dia quando a Alice tinha descoberto qual era o salário da Madalena, não pregava olho a pensar o que ela poderia fazer para o dono de restaurante ficar de pé atrás com a sua amiga. 

Vale a pena lembrar duma verdade triste: quando o nosso grande amigo mete o nariz na nossa vida, não podemos dormir calmamente a pensar que temos as costas quentes no trabalho. O perigo vem do lado o menos previsível...  

Uma manhã a Alice tinha decidido fingir que a Madalena roubou o dinheiro da caixa do restaurante e depois, a rir-se maliciosamente, saiu de casa. 

Era cedo, o restaurante ainda estava vazio. Mas a caixa – cheia do lucro de ontem. A Alice não quis perder o tempo. Em breve tirou todo o dinheiro e começou a colocá-los na mala da Madalena. Infelizmente para ela, não reparou que um cliente que já tinha a barriga a dar horas, entrou na cozinha e viu tudo. Ainda pior, foi o seu próprio namorado! Em seguida, a Madalena também apareceu na cozinha. E embora a Alice tenha dado o braço a torcer, ninguém acreditou nela. Desta maneira perdeu a amiga, e o namorado. E o trabalho!  

11º postal – Estrada Transfăgărășan

Escrito por 5.9.17

Romênia, setembro 2015

Foi constrúida no 1974 ano e passa entre Moldovenau e Negoiu, as duas montanhas mais altas da Romênia. O topo da Estrada Transfăgărășan fica nos 2034 metros, o que faz dela a segunda mais alta estrada asfalta neste país. Lá está localizado o túnel mais longo da Romênia. Mas há mais factos encorajadores para visitar este lugar e andar de bicicleta 90 km de curvas. 

A Estrada Transfăgărășan é chamada uma das mais bonitas estradas do mundo. E, na verdade, é. Andar para cima de bicicleta é a melhor forma de admirar a paisagem. Sobe-se durante tanto tempo (especialmente com os alforges com todo o equipamento de duas semanas), que não dá para apreciar a beleza dela. Vai-se um ou dois dias – dependente da condição física e do tempo. Nós tivemos que ficar no topo durante a noite (há lá 4 abrigos) por causa da tempestade. Valeu a pena fazer uma pausa. As vistas depois da chuva foram inesquecível.
Um conselho: a Estrada Transfăgărășan é muito popular, também entre motociclistas, especialmente durante os fins de semana. Portanto vale a pena planear ir lá num dia que não seja o sábado ou domingo. 

A declinação. Quem a inventou e porquê?

Escrito por 28.8.17
Não sei quem exatamente. Os pesquisadores consideram que já a língua indo-europeia era uma língua flexionada, o que significaria que o culpado andava pelo mundo até há cerca de 5000 anos atrás. No entanto, aqueles que aprendem polaco e não têm a origem eslava ficam nervosos por muitas vezes por causa da declinação, a perguntar “porquê?”. Por que se declinam substantivos, adjetivos, numerais, pronomes? Para quê tudo isso, todas as formas – sete casos no singular e plural um conjunto de catorze – de uma só palavra? 

A coisa é mais comum do que se pensa
Tenho de desapontar todos os que pensam que o polaco é uma língua especial, mais difícil do que as outras ou mais complicada. Sim, claro, para mim – polaca – é especial. Faz parte da minha identidade nacional, da minha vida mental e profissional. Contudo a declinação nela não é extraordinária, nem única. Ocorre em muitas outras línguas, também em português, em que persistem várias formas de pronomes. É uma herança do latim, para qual hoje em dia não se presta a grande atenção, porque é, em primeiro lugar, uma parte pequena de todo o sistema da língua portuguesa. Além disso, em geral, é muito fácil para aprender. Com o polaco a situação é diferente. A declinação domina nesta língua e pode ser chamada como uma „marca” dela.   

Para que serve a língua? 
Uma língua, em geral, serve para a comunicação. Para expressar necessidades e pensamentos. Evoluiu por razões práticas. A seguir, vale a pena lembrar que a gramática – por causa desta  função básica de língua – deveria servir a semântica. E normalmente serve. Portanto para sermos bem entendidos, temos que pôr em ordem todos os elementos sintáticos e morfológicos, típicos para a língua que falamos. Então o processo de comunicar é algo parecido com isto:

1. Temos uma ideia na cabeça.
2. Queremos articulá-la.
3. Escolhemos o vocabulário adequado para o nosso assunto.
4. Colocamos o vocabulário num esquema gramatical.

É obvio? Não exatamente.

A dificuldade fica na cabeça
Saber usar desinências é um conhecimento indispensável para se comunicar em polaco de uma maneira compreensível. Ignorar a gramática é possível, mas ineficaz. Por outro lado, pôr toda a sua atenção na sintaxe, concentrar-se em cada uma desinência sem lembrar da razão para usá-la, faz-nos sentir como se todas as regras foram inventadas apenas para complicar a nossa vida de estudantes. 

Vou repetir: a gramática de cada uma língua serve nós para expressarmos os nossos pensamentos. Nem mais, nem menos. Por isso temos de perceber os contextos, nos quais usamos uma ou outra estrutura, em vez de memorizar sem reflexão todas as regras escritas no livro das aulas. 

Isso pode tornar-se difícil em si mesmo devido ao hábito da estrutura da nossa língua nativa. Eu sempre tenho problemas com a conjugação em português. Não por causa da variedade dos tempos, modos e formas – teoricamente já sei bastante sobre eles. O problema fica numa lacuna no meu próprio sistema. No polaco moderno só existem três tempos no indicativo e quatro maneiras de construi-los. O meu cérebro deve fazer um trabalho enorme para se lembrar que o conjuntivo ou o qualquer tempo composto existem. Somente depois posso tentar usá-los, o que faço menos do que devia no meu discurso. Desta forma não consigo expressar tudo o que queria. 

Uma falta de elemento, duma construção na língua que se sabe bem sempre causa a dificuldade em entender e, em consequência, verbalizar um conceito novo para nós. E esta falta causa a maioria das dificuldades em aprender (portanto, todos os rankings na língua mais difícil do mundo não fazem sentido).

Enfim, porquê a declinação foi inventada?
A declinação foi inventada para especificar relações entre elementos da frase. Há línguas nas quais o sentido é ligado com a ordem da frase. Em polaco a ordem não é tão necessária – a forma de substantivo, adjetivo, numeral, pronome vai dizer-nos tudo. Ex.:

Kot zjadł ptaka tem o mesmo sentido do que Ptaka zjadł kot. (Um gato comeu um passaro.)
Kota zjadł ptak tem o mesmo sentido do que Ptak zjadł kota. (Um passaro comeu um gato...)

Mas: 
Kot zjadł ptaka é o oposto de Kota zjadł ptak.  

O importante é quem comeu quem. Depois precisa-se de saber que esta criatura que comeu, um perpetro da ação, um sujeito, fica numa forma básica – o nominativo, e esta que foi comida, um objeto direito, deve modificar a sua forma para o acusativo. 

Outros exemplos? 

O instrumentalis podemos utilizar, entre outros, quando queremos... dizer algo sobre o instrumento da acção: Piszę długopisem (Escrevo com a caneta), Myślę głową (Penso com a cabeça).
O dativus utilizamos quando queremos dizer sobre a alguém a quem algo foi dado, literalmente e metaforicamente: Dałam książkę Ali (Dei o livro a Ala), Złożyłam życzenia Markowi (Desejei tudo de melhor a Marek).
O genetivus podemos usar por exemplo quando dizemos a forma negativa da maioria dos verbos: Nie lubię pomidorów (Não gosto de tomates). Nie czytam tej książki (Não leio este livro).

Todas estas frases serão compreensível invertadas, como: Długopisem piszę., Głową myślę., Ali dałam książkę., Markowi złożyłam życzenia., Pomidorów nie lubię., Tej książki nie czytam.

Claro que nem tudo é tão claro e que nem todas as regras da declinação são muito fáceis para explicar. Há também algumas formas que dependem do verbo concreto, não do sentido da frase. Mas se língua natural fosse lógica do começo até ao fim, não seria natural. 


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