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O que liga a linguística e a programação?

Escrito por 31.1.18
Não sei como é em Portugal, mas na Polónia quando alguém diz que é um humanista, a primeira ideia que chega a cabeça dos ouvintes é: ele só consegue ler livros, talvez escrever algo, e não sabe nada de matemática nem qualquer outra ciência lógica ou biológica. No mesmo momento desaparece totalmente a ideia bonita de humanismo que mostra o homem como a criatura pensada – que pode ampliar os seus horizontes em varias áreas, para a qual não existe um conceito de limite ou de impossibilidade. Portanto não estive muito surpreendida ao encontrar um cepticismo grande enquanto disse: Quero mudar a minha profissão! O meu objetivo será aprender programação!

De vez em quando vale a pena começar a fazer algo novo. Para refrescar a mente e para não parar de descobrir o mundo das varias maneiras. Uma transformação da área linguística para a tecnologia da informação não é nenhum passo muito estranho. Apesar das aparências, uma não fica tão longe de outra. Sinto que só alargaria as competenções novas. 


O testador de software é como o revisor

Passei anos a rever vários tipos de textos – os textos mais ou menos complexos, escritos melhor ou pior. Os textos sobre ornitologia, medicina, arquitetura, linguística... e muito outros. Mas o meu trabalho não significava apenas procurar os erros. Significava estar atenta por todo o tempo, saber onde e o que procurar e conseguir fazer isso tudo tão rápido como bem.

Procurar os erros em software é uma coisa semelhante: deve-se estar atento por todo o tempo, saber onde e o que procurar e conseguir fazer isso tudo tão rápido como bem. 

São só matérias diferentes nos quais se trabalha: a primeira, o texto, é estática e a segunda, o software, é dinâmica. Além disso, há mais métodos de testar programas, mais pode acontecer, mais é imprevisível.   

O programador é como o linguista

Porque é que nós utilizamos qualquer língua? Qual é a maior razão para falar com outras pessoas? A resposta é: fazemos isso tudo para se comunicar. A única diferença é que uma língua natural serve para se comunicar entre homens e que uma língua de programação – para se comunicar com computadores. 

Ambos tipos das línguas têm a sua sintaxe, a sua lógica, terminologia e regras que as mantêm em ordem. Portanto quando se gosta deste tipo de “brincadeira”, fazê-la pode dar muito prazer, não importa de quem a faz: o linguista ou o programador. 

E vocês, veem semelhanças ou diferenças entre línguas naturais e línguas de programação? Eu vejo muitas e vou escrever sobre elas na próxima vez.


Como escrever um texto com jeito? – uma receita

Escrito por 16.11.17
Muitas vezes ouço como os meus alunos dizem: “Esqueça! Não vou escrever nenhum texto. Não tenho jeito para isso.” – e nunca sei se eles realmente pensam desta maneira, se talvez sejam preguiçosos por natureza. Em ambos os casos pode-se dizer que é o jeito deles, mas ambos são também diferentes um do outro. Num primeiro caso trabalha-se com o aluno para ele confiar em si. Num segundo caso é difícil fazer qualquer coisa – quando alguém tem o jeito assim, não vai escrever nada. Vai sempre repetir: „Este assunto é uma chatice! Não me faz jeito escrever coisas tão aborrecidas!”

A verdade é que escrever é como correr, cortar o cabelo, conduzir, programar, cozinhar. Ao início deve-se saber um pouco. Contudo depois, para fazê-lo bem, tem de se praticar tanto quanto possível. Logo se vê, que quanto mais regularmente se escreve, mais regularmente as palavras necessárias estão a jeito.

Para escrever um texto com jeito basta:
  1. Pensar bem sobre o assunto e dar um jeito aos pensamentos, para criar um primeiro  – já arrumado – conspecto do texto.
  2. Ter jeito com cada uma das frases. Ter cuidado com o que se escreve ajuda nem só estar mais preciso no que se está a fazer, mas também aprender mais rapidamente como combinar as palavras.
  3. Depois escrever – olhar por todo o jeito do texto. Às vezes é mais fácil modificar o feitio da escritura quando esta já está feita desde o início até ao fim.


E lembre-se:
  1. Não se esqueça ter a sua caneta e uma folha de papel sempre a jeito.
  2. Trabalha constantemente, mas não pense que num instante alguém, depois ler o seu texto, vai gritar com admiração: Este texto é ao jeito de (aqui insere o nome de qualquer escritor grande)! Não tem importância nenhuma ser semelhante a outra pessoa. O mais importante é ter o seu próprio estilo.
  3. Cada um de nós tem dias melhores e dias piores. Portanto tal como atlets que às vezes dão um jeito á alguma parte do corpo porque estão cansados, um escritor – ás vezes também – escreve um texto que não tem jeito
  4. Não tenha medo dizer: „Este assunto não me dá jeito!”. Não tudo pode ser conveniente para todos.
  5. Pode-se escrever vários tipos dos textos. Por exemplo aqueles que servem em jeito de desculpa, agradecimento, fazer desejos, etc. Não se esqueça sobre esta variedade!

*
Agora tenho que pedir vocês para fazerem-me um jeito e escreverem mais exemplos dos expressões ou maneiras de usar a palavra “jeito”!

O aspecto gramatical na língua polaca

Escrito por 22.9.17
Em geral há dois tipos de problemas, que podemos encontrar ao aprender alguma língua. Ambos resultam do mesmo: da especificidade do sistema linguístico, que já conhecemos. Contudo diferem entre si à escala em que eles aparecem. A primeira escala pode ser chamada “local”. Por exemplo: o maior problema dos alemães é a fonética polaca; os etíopes não têm quase nenhum problema com a fonética, mas muitas vezes é difícil para eles agarrar o conceito total da construção da frase; os russos estão a lutar com falsos amigos e calques. Isso é uma generalização – sempre se vai encontrar alguém que será uma exceção. A segunda escala é antes “global” e refere-se às questões populares na maioria dos estudantes da língua polaca. Estes são, entre outros, os números, a declinação e o aspecto gramatical.

Já escrevi sobre os números (link) e a declinação (link). Desta vez o que me interessa é o aspecto, uma maldição para os estudantes estrangeiros e uma pura beleza para os nativos. Porquê beleza? Porque o aspecto dá várias possibilidades de jogar com as palavras, no sentidos delas e da forma de toda a frase.


O aspecto em polaco – teoria...
Muitos séculos atrás para falar sobre passado usava-se em polaco 4 tempos: simples e complexos, perfeitos e imperfeitos. Mas esta situação mudou-se rapidamente e nós podemos observá-la apenas nas obras mais antigas da língua polaca. O aspecto tinha “vindo”, ao trocar os velhos tempos e determinou as nossas mentes a mudar também a maneira de falar sobre ações. Era uma das maiores mudanças nas línguas eslavas em toda a sua historia. 

O conceito de aspecto é, em teoria, fácil. Usamos dois tipos de verbos: ou perfeitos, ou imperfeitos. Verbos perfeitos são utilizados quando falamos sobre passado ou futuro e significam uma ação feita, terminada. Verbos imperfeitos mostram uma ação que continua, que está in statu nascendi. 

Exemplos dos verbos przeczytać e czytać

– Wczoraj przeczytałem książkę. – Ontem li um livro.
– Jutro przeczytam książkę. – Amanhã lerei um livro (até ao fim).

– Wczoraj czytałem książkę. – Ontem estava a ler um livro.
– Dziś czytam książkę. – Hoje estou a ler um livro. 
– Jutro będę czytać // czytał(a) książkę. – Amanhã vou ler um livro (talvez só uma página, talvez noventa). 


...e prática
Em prática aparecem muitos problemas, mas dois deles são os mais típicos.

  • 1. Os polacos substituem formas perfeitas com imperfeitas quando falam sobre o futuro.

Sim. Eu própria as vezes esqueço-me de ser „correta” e uso construções imperfeitas do futuro em vez de perfeitas, mesmo que queira apontar uma ação finalizada: Jutro będę robiła obiad (em vez de zrobię). Jutro będę szła do dentysty (em vez de pójdę). Desta forma não consigo precisar suficientemente bem o sentido das minhas palavras e deixo a compreensão delas para o contexto mais amplo no qual elas foram ditas. Não sei porque no futuro as formas imperfeitas são tão comuns. Posso só suspeitar – o futuro jamais é certo, então é mais seguro e natural dizer que planeio estar a fazer alguma coisa do que com certeza fazê-la até ao fim.   

Em cima escrevi a palavra „correta” entre aspas, porque regras são uma coisa e a língua falada é outra. Portanto a linha entre estar correto ou errado é muito fina. Talvez algum dia escreva mais sobre este assunto.

  • 2. Existem dezenas de verbos perfeitos ligados a só um verbo imperfeito


Assim: pić – wypić, napić się, dopić, przepić, upić się, spić, opić... E cada um deles tem outro sentido e é utilizado no outro contexto. 
Isso é o pior. Não, desculpa. Ainda pior é que (aqui estou a responder à pergunta mais comum dos meus alunos), infelizmente, não conheço nenhum livro nem dicionário que acumularia todos estes verbos. Uma das culpas pode ser simples – possibilidades de construir verbos perfeitos em polaco são... quase infinitas.  


Como se aprender este monte de verbos perfeitos?  
Tal como se come um elefante. Conhecem esta receita? Para comer um elefante precisa-se de comê-lo peça por peça. Então a melhor solução é começar desde início, ou de pares de verbos que são chamadas “pary aspektowe” – pares aspectuais. 

Os exemplos de pares aspectuais podem ser: a) com prefixo numa forma perfeita czytać – przeczytać, pisać – napisać, robić – zrobić, jeść – zjeść, pić – wypić, b) com infixo  numa forma imperfeita dawać – dać, kupować – kupić, c) formas diferentes dos verbos brać – wziąć etc. Vale a pena usá-las tantas vezes quantas se precisarem para ficar fluente nisso.

Depois seria bom aprender prefixos mais comuns e os sentidos que eles têm quando se os adiciona aos verbos. Por exemplo: wy- em verbos como wyjść, wynieść, wypaść, wylać etc. mostra uma direção/um sentido “mover fora”; do- em verbos como dopisać, dopić, doczytać, dopowiedzieć significa “finalizar pelo adicionar algum movimento” etc. Há excepções, nem tudo é tão obvio, um prefixo pode dar mais do que só um sentido e perder-se nisso tudo é muito fácil. Mas conhecer formas perfeitas mais complexas e exigentes do que só pares aspectuais mostra o nível muito avançado do polaco. Não existe outra solução para sabê-los do que ouvir, falar, ler e não ter medo de tentar construir estes tipos de verbos sem parar. 


A declinação. Quem a inventou e porquê?

Escrito por 28.8.17
Não sei quem exatamente. Os pesquisadores consideram que já a língua indo-europeia era uma língua flexionada, o que significaria que o culpado andava pelo mundo até há cerca de 5000 anos atrás. No entanto, aqueles que aprendem polaco e não têm a origem eslava ficam nervosos por muitas vezes por causa da declinação, a perguntar “porquê?”. Por que se declinam substantivos, adjetivos, numerais, pronomes? Para quê tudo isso, todas as formas – sete casos no singular e plural um conjunto de catorze – de uma só palavra? 

A coisa é mais comum do que se pensa
Tenho de desapontar todos os que pensam que o polaco é uma língua especial, mais difícil do que as outras ou mais complicada. Sim, claro, para mim – polaca – é especial. Faz parte da minha identidade nacional, da minha vida mental e profissional. Contudo a declinação nela não é extraordinária, nem única. Ocorre em muitas outras línguas, também em português, em que persistem várias formas de pronomes. É uma herança do latim, para qual hoje em dia não se presta a grande atenção, porque é, em primeiro lugar, uma parte pequena de todo o sistema da língua portuguesa. Além disso, em geral, é muito fácil para aprender. Com o polaco a situação é diferente. A declinação domina nesta língua e pode ser chamada como uma „marca” dela.   

Para que serve a língua? 
Uma língua, em geral, serve para a comunicação. Para expressar necessidades e pensamentos. Evoluiu por razões práticas. A seguir, vale a pena lembrar que a gramática – por causa desta  função básica de língua – deveria servir a semântica. E normalmente serve. Portanto para sermos bem entendidos, temos que pôr em ordem todos os elementos sintáticos e morfológicos, típicos para a língua que falamos. Então o processo de comunicar é algo parecido com isto:

1. Temos uma ideia na cabeça.
2. Queremos articulá-la.
3. Escolhemos o vocabulário adequado para o nosso assunto.
4. Colocamos o vocabulário num esquema gramatical.

É obvio? Não exatamente.

A dificuldade fica na cabeça
Saber usar desinências é um conhecimento indispensável para se comunicar em polaco de uma maneira compreensível. Ignorar a gramática é possível, mas ineficaz. Por outro lado, pôr toda a sua atenção na sintaxe, concentrar-se em cada uma desinência sem lembrar da razão para usá-la, faz-nos sentir como se todas as regras foram inventadas apenas para complicar a nossa vida de estudantes. 

Vou repetir: a gramática de cada uma língua serve nós para expressarmos os nossos pensamentos. Nem mais, nem menos. Por isso temos de perceber os contextos, nos quais usamos uma ou outra estrutura, em vez de memorizar sem reflexão todas as regras escritas no livro das aulas. 

Isso pode tornar-se difícil em si mesmo devido ao hábito da estrutura da nossa língua nativa. Eu sempre tenho problemas com a conjugação em português. Não por causa da variedade dos tempos, modos e formas – teoricamente já sei bastante sobre eles. O problema fica numa lacuna no meu próprio sistema. No polaco moderno só existem três tempos no indicativo e quatro maneiras de construi-los. O meu cérebro deve fazer um trabalho enorme para se lembrar que o conjuntivo ou o qualquer tempo composto existem. Somente depois posso tentar usá-los, o que faço menos do que devia no meu discurso. Desta forma não consigo expressar tudo o que queria. 

Uma falta de elemento, duma construção na língua que se sabe bem sempre causa a dificuldade em entender e, em consequência, verbalizar um conceito novo para nós. E esta falta causa a maioria das dificuldades em aprender (portanto, todos os rankings na língua mais difícil do mundo não fazem sentido).

Enfim, porquê a declinação foi inventada?
A declinação foi inventada para especificar relações entre elementos da frase. Há línguas nas quais o sentido é ligado com a ordem da frase. Em polaco a ordem não é tão necessária – a forma de substantivo, adjetivo, numeral, pronome vai dizer-nos tudo. Ex.:

Kot zjadł ptaka tem o mesmo sentido do que Ptaka zjadł kot. (Um gato comeu um passaro.)
Kota zjadł ptak tem o mesmo sentido do que Ptak zjadł kota. (Um passaro comeu um gato...)

Mas: 
Kot zjadł ptaka é o oposto de Kota zjadł ptak.  

O importante é quem comeu quem. Depois precisa-se de saber que esta criatura que comeu, um perpetro da ação, um sujeito, fica numa forma básica – o nominativo, e esta que foi comida, um objeto direito, deve modificar a sua forma para o acusativo. 

Outros exemplos? 

O instrumentalis podemos utilizar, entre outros, quando queremos... dizer algo sobre o instrumento da acção: Piszę długopisem (Escrevo com a caneta), Myślę głową (Penso com a cabeça).
O dativus utilizamos quando queremos dizer sobre a alguém a quem algo foi dado, literalmente e metaforicamente: Dałam książkę Ali (Dei o livro a Ala), Złożyłam życzenia Markowi (Desejei tudo de melhor a Marek).
O genetivus podemos usar por exemplo quando dizemos a forma negativa da maioria dos verbos: Nie lubię pomidorów (Não gosto de tomates). Nie czytam tej książki (Não leio este livro).

Todas estas frases serão compreensível invertadas, como: Długopisem piszę., Głową myślę., Ali dałam książkę., Markowi złożyłam życzenia., Pomidorów nie lubię., Tej książki nie czytam.

Claro que nem tudo é tão claro e que nem todas as regras da declinação são muito fáceis para explicar. Há também algumas formas que dependem do verbo concreto, não do sentido da frase. Mas se língua natural fosse lógica do começo até ao fim, não seria natural. 


5 razões para ver telenovelas

Escrito por 18.5.17
Sou uma super fã das telenovelas portuguesas. Comecei vê-las para aprender a língua, mas rapidamente percebi que esta forma de passar o tempo é tudo o que eu sempre precisava. Encontrei uma actividade que não exige de mim quase nada. Posso passar horas sem pensar. Fantástico, não é? Mas isso é só uma razão para ver telenovelas e eu quero compartilhar com vocês mais (não apenas linguisticas). 

1. Língua simples
A minha amiga estava a aprender espanhol só de ver telenovelas mexicanas. O efeito? Ela sabe falar espanhol no nível intermédio. O único problema é que apesar de ser fluente, ela não conhece as palavras como o pão... Mas quem se importa pão quando há coisas mais importantes como fazer intrigas, descobrir que o nosso verdadeiro avô é o pai da nossa mulher, envenenar o namorado da nossa filha porque tivemos um caso com ele etc. Telenovelas ajudam contar as histórias sobre todas as famílias ou relações do mundo – isto é o que importa.
Contudo o que é o mais importante – até mesmo a história mais complicada é dita numas palavras simples. Por isso telenovelas são adequadas também para os que apenas começam aprender alguma língua.





2. Repetibilidade de sequências 
Repetitio est mater studiorum – costumavam dizer os antigos romanos. Esta frase confirma-se em relação a telenovelas. Todas delas têm mais que um leitmotiv. Ainda mais – é um leitmotiv universal, que repete-se cada vez em cada nova série. Normalmente é uma combinação da inveja, traição e vingança: os sentimentos muito fortes sobre os quais os actores sempre falam na mesma maneira. A graça disso é que podemos enriquecer o vocabulário ligado as varias emoções.

3. 438225 episódios 
Ninguém duvida que a regularidade é um chave do sucesso, especialmente quando aprendemos alguma língua. Só uma telenovela garante-nós pelo menos um ano de divertimento e de contacto com a língua. Já conhecemos todas as personagens, já pensamos sobre a vida delas como se elas fossem nossos vizinhos. Já mal podemos esperar pelo próximo episódio. Felizmente, há milhão deles e são emitidos todos os dias. A regularidade de estudar faz se por si só e não precisa da nossa ajuda. Portanto quando desejamos ter um contacto com a língua diariamente, vamos viciar-nos em telenovelas.

4. Ação lenta
A complicação de acção faz que em geral telenovelas não pertencem ao muito dinâmico género de filmes. Então não se precisa preocupar: mesmo que não vejamos 15 episódios, não perdemos muito.

5. Inspiração 
– O Leonardo tem a alma artística. Infelizmente tem que trabalhar como vendedor de batata-doce. A vida dele muda-se graças à Filomena misteriosa. 
– O Francisco ama a sua mãe como se ela fosse a ama dele. Tem sorte, porque descobre-se que ela não é a sua verdadeira mãe.
– A Patrícia, uma amiga grande da Madalena, “comeu” o pai da Madalena, portanto a Madalena “comeu” o irmão da Patrícia, que na verdade é o irmão da Madalena, a única pessoa que sabe é o pai da Patrícia. 

Querem mais? Não há problema. Posso criar. Estes em cima são os exemplos dos esboços de telenovelas que foram usados no ano passado numa competição durante o evento que organizei. Ganhou esta equipa que tinha preparado a melhor encenação baseado no esboço.

A conclusão é simples: telenovelas ensinam e divertem.

Como aprender uma língua enquanto se viaja?

Escrito por 25.11.16

Diz-se que a melhor forma de se aprender uma língua é viajar. Uma estadia num outro país deixa aproximar-se das pessoas que falam nativamente língua que nos interessa. Porquê então tão pouca gente volta de Erasmus a conhecer uma língua nova (excepto inglês)? Porquê é que o mesmo acontece quando gastamos dinheiro para ter férias organizadas por alguma agência de viagens? 

A resposta é fácil: o mais importante não é uma viagem qualquer. O nosso sucesso linguístico depende da maneira de como passar o tempo no exterior. 

O que melhor funciona é andar à boleia – recomendo sem dúvidas, com experiência rica neste assunto. Mas os que preferem aproveitar a sua viagem mais calmamente têm que se lembrar do seguinte: 

Primeiro, não se pode fugir de contato com os nativos. Isso está certo? 
...Então porquê ainda faz compras num supermercado e não numa loja pequena, onde tem que fazer conversa com o vendedor? Não tenha medo de cometer os erros – até os melhores professores do mundo cometem-nos. Exponha-se nos outros e pratique falar.

Segundo, pare com falar todas as outras línguas que conhece. Ainda que isso exigiria ir para o estrangeiro sem companhia. Aliás, vai conhecer pessoas durante a sua viagem – e isso é sempre muito valioso.

Terceiro, passe todo o tempo a aprender. Concentre-se e faça o máximo possível para utilizar bem o seu tempo. Esse tipo de experiência é único. 

Voilà! Boas viagens!

Como se motivar para aprender uma língua? As 6 maneiras

Escrito por 10.11.16

Não há milagres. Para se saber bem outra língua precisa-se de ter uma motivação inesgotável. E essa é a primeira coisa sem a qual todos os guias dedicados ao assunto do processo de aprendizagem, intitulados por exemplo X maneiras excelentes de aprender uma língua, são inúteis.   

A motivação: uma vontade que encoraja ou um esforço preciso. Um motor que nos ajuda a não parar este processo tão fascinante como cansativo. Abaixo vocês encontram 6 maneiras de se motivarem para aprender uma língua.    

1. Aposte com alguém  

Não existe nenhuma maneira mais eficiente de aprender do que a rivalidade. Quando tomamos a decisão de competir com alguém, todos os nossos instintos primitivos acordam no momento. Já sabemos que sem dúvidas somos NÓS que vamos a ganhar! Só precisamos de prová-lo. Por isso temos que dar o melhor de nós. Um objectivo é claro: caçar um mamute antes dos outros, trazê-lo para casa e ficar admirado por mulheres para sempre.   

Um exagero? Não, um mecanismo simples que funciona bem por milhares de anos. Aliás, conheço pessoalmente uma alemã que apostou com o colega dela – vai aprender polaco até saber esta língua realmente bem. O resultado? Agora ela fala polaco como poucos falam.   

E o que com essas pessoas que não precisam de tanta adrenalina? A boa solução para eles pode ser por exemplo... escrever um blog. Obrigar-se a ser sistemático com algo (que se gosta de fazer!) em frente de outros também dá uma grande motivação. Sei algo sobre isso.   

2. Case-se com estrangeiro ou estrangeira...  

...ou pelo menos namore com ele ou ela.   

Estatísticas dizem claramente: uma das maiores razões para se aprender uma língua é ter a vontade de se comunicar bem com o seu amado ou a sua amada.   

Contudo o que e fazer quando já se tem o seu príncipe ou a sua princesa que fala a mesma língua do que nós? Não, não se precisa de acabar com ele ou ela nem se divorciar. Pode-se, por exemplo, encontrar amigos estrangeiros e falar com eles, escrever-lhes  cartas: basta procurar. Onde? Na internet. Mas quando não se gosta desta forma de comunicação, é bom saber que nas cidades maiores muitas vezes existem os grupos que se encontram regularmente para falar outras línguas.   

3. Comece um curso na faculdade de letras  

É verdade, que cursos nas escolas de línguas dão muito prazer, mas muitas vezes também não são um grande desafio. Na universidade, ao contrário. Para ficar lá mais tempo precisa-se de lutar com as suas fraquezas, estudar todos os dias e passar muitos exames.  

Obrigação – essa é a próxima coisa que dá efeitos.   

Estou consciente que para vocês pareço ser uma pessoa muito infeliz, que tem na sua vida nada mais, nada menos do que só obrigações. Repito como se fosse um mantra: Obrigação é boa, obrigação é isso que precisamos, obrigação motiva-nos…   

Acreditem, eu sou feliz (olhem: nº 5 e 6)! Simplesmente julgo que uma vontade própria nem sempre é o suficiente. Mas quando está suportada pela necessidade – traz melhores resultados.   

4. Escolha um trabalho com a sua língua preferida  

Ao trabalhar com alguma língua deve-se ter a capacidade de perceber, falar, escrever, ou seja; precisa-se de saber bem esta língua.  

Não há diferença onde se trabalha: na sua cidade ou fora do país. Conheço muitas pessoas que vivem na Polónia há anos e nem pensam aprender polaco porque nas suas empresas falam inglês. Conheço também varias que trabalham com o polaco no estrangeiro e falam muito bem.  

Então: porque é que não se motivar para aprender uma língua para utilizá-la por motivos profissionais?

5. Pratique um hobby   

Não há diferença se se gosta de nadar, fazer decoupage, tocar piano ou fumar. A única coisa de que se precisa é a compreensão da possibilidade de praticar um hobby não apenas na língua materna.   

Claro que é melhor não falar no momento em que se nada, mas ler sobre a natação, ter uma conversa interessante com outros que gostam do mesmo desporto, ver os filmes com  sobre natação – já são as coisas que deixam elevar o nível de qualquer língua rapidamente e sem dor desnecessária.    

Enquanto praticar um hobby aparece um desejo de saber cada vez mais. Isso significa a seguinte: a boa motivação para aprender uma língua.  


6. Goste da língua que quer falar   

Ter uma vontade clara que é um único motivo de aprender e que é suficiente para se motivar: o mais difícil e o menos provável.   

Mas acontece. Neste caso tem-se tudo e não se precisa de mais nada.   


Sou feliz, estou feliz. 2 verbos em português vs. 1 verbo em polaco

Escrito por 3.11.16

– Porquê?   

É a pergunta mais comum entre os meus alunos.   

– Porque é que tenho de construir milhões de formas de só um substantivo? Na minha língua não se precisa de fazer isso.  
– Porque é que vocês, polacos, usam tantas consoantes estranhas? É impossível dizer: «W Szczebrzeszynie chrząszcz brzmi w trzcinie!» 
– Porque é que o polaco é tão difícil? [não é!]  
– Porque é que...  

– Porque.   

Mas ninguém gosta de ouvir uma resposta assim. Nem eu. Embora já tenha aprendido que as vezes é melhor não saber (e isso aplica-se não só apenas à matéria linguística), como professora sinto-me feliz, sinto-me realizada por poder dar uma boa explicação do assunto.   

Por outro lado, entendo muito bem a sede do conhecimento e da compreensão. Ademais, sei que esta sede pode tornar-se duma simples curiosidade numa verdadeira maldição: porquê? de manhã, porquê? durante o dia, porquê? antes de dormir. Acreditem, é muito mais fácil viver sem fazer perguntas. Mas eu já não consigo.   

Então, talvez algum de vocês é capaz de dizer-me porque é que os portugueses usam dois verbos: ser e estar? Não as condições do uso – já as conheço. Até sei utilizar mais ou menos.   

Mas olhem. Em polaco Sou feliz é: Jestem szczęśliwa. E estou feliz também é: Jestem szczęśliwa. Não fazemos nenhuma distinção entre ser e estar. Para nós existe só um verbo utilizado num lugar dos dois verbos portugueses. Sou polaca. Estou cansada. Sou bêbada. Estou bêbada. Para mim é sempre o mesmo: jestem.  

Quando falámos outra língua o mais difícil é utilizar estes elementos ou estas estruturas que não existem no sistema da nossa língua materna.  

Então: porquê?   

Não me digam que não podem responder. 

Os números: português vs. polaco

Escrito por 28.10.16
Sabem qual é a melhor forma para se aprender os números? Ir ao estrangeiro e ter uma obrigação de fazer compras no mercado. Ou numa loja pequena onde não há oportunidade para evitar a conversa com o vendedor. Um verdadeiro paraíso começa nos países onde se pode negociar o preço. Por exemplo na Turquia. Viajar à boleia por cinco semanas por todas as regiões deste país foi uma ótima escola não só da cultura e das tradições turcas, mas também da língua (não pensem que falo turco – aprendi só 50-60 palavras, mas eram suficientes para não me perder lá; e fazer as conversas: embora limitadas, eram muito interessantes).   

Claro que, tudo é possível, assim como comunicar sem palavras apenas com os gestos e mímica, mas o conhecimento das palavras às vezes simplesmente facilita tudo. Não sei como é com vocês, mas eu aprecio muito o sentido de conseguir sobreviver numa outra parte do mundo. E contar na língua estrangeira é uma dessas superpowers que me permitem sentir confiante pelo menos a comprar algumas frutas ou lembranças num mercado.   

Talvez seja uma vergonha, mas a contar bem em português e saber dizer quinze sem repetir sempre: “onze, doze, treze, catorze, quinze (!)” na minha cabeça aprendi só este ano. Não era em Portugal. Era na… Bolivia. Eu sei, eu sei – o português NÃO É espanhol, mas têm de admitir que os números nestas duas línguas são parecidos. Também o russo está mais distante do polaco do que maioria do mundo pensa, mas sem dúvida a razão pela qual nós, polacos, não temos nenhum problema de contar em russo é que os números são muito semelhantes uns aos outros.   

Em Portugal faço as compras normalmente no Pingo Doce, Lidl, Continente. Então, nunca tive nenhuma necessidade de aprendê-los bem. Na Bolivia não havia outra solução – para não ficar logo sem dinheiro assim que chegámos lá, tive de usar os números fluentemente, negociar os preços e parecer como se o espanhol fosse a minha segunda língua, após o polaco. Graças ao conhecimento do português fui capaz fazer as conversas em espanhol – se calhar não muito finas, mas suficientes para não deixar alguém enganar-me.    


A minha primeira aula do português. E vossa do polaco  

Os números encontrei pela primeira vez na minha primeira aula de português. Lembro-me disso como se fosse ontem. Na verdade foi há muito tempo atrás – já vos disse que ser sistemática é o oposto da minha natureza, portanto esta aprendizagem prolonga-se há muitos anos. Em comparação ao polaco não é nada difícil em contar em português. Só se precisa de memorizar tudo. E pronto. Está feito. Até as diferenças entre os géneros, tais como um, dois no masculino e uma, duas no feminino, são um grande prazer para os quais aprendem ou falam língua polaca. A sério: os números são das coisas mais loucas em polaco. Nem sempre os próprios polacos conseguem utilizá-los corretamente.

Por exemplo em polaco temos cinco 2 básicos. São as formas: dwa, dwaj, dwóch, dwie, dwoje utilizadas só no caso que se chama «nominativo» (os casos existiam no latim). Dizemos:

  • dwa psy (dois cães – utilizamos para tudo o que é da forma neutra ou masculina e simultaneamente não é um homem);
  • dwaj mężczyźni (dois homens – utilizamos para a forma masculina, além disso que significa um homem);
  • dwóch mężczyzn (também dois homens, mas aqui a forma dwóch é outro caso, o «dativo»; semanticamente são iguais, muda-se “apenas” a estrutura da frase);
  • dwie kobiety (duas mulheres);
  • dwoje ludzi (duas pessoas que pode significar: um par masculino-feminino, criaturas imaturas como crianças ou os substantivos que têm só plural).

Estes são os básicos. Depois começa-se a declinação verdadeira: sete casos – as sete formas diferentes para cada da forma mostrada lá em cima – que utilizamos dependendo do contexto. E é apenas um numero: dois. O resto é...

...não. Não vou mostrar-vos o resto porque queria ter alguns seguidores do meu blog.


O português na Polónia

Escrito por 25.10.16
Pronto. Já conhecem a história do papel higiénico que aconteceu num dos parques de campismo em Portugal. Mas não pensem que foi exatamente esta situação graças à qual decidi aprender português. Nada disso. É verdade que naquele momento em frente da casa de banho queria ajudar uma criança, mas simultaneamente não passei por nenhuma iluminação, nem comecei a ter necessidade de completar uma missão estranha.   

A vontade de aprender português já estava viva em mim há muito tempo, mais ou menos desde os sete anos. Todavia deixem-me esconder a verdadeira razão disso – não era nada de interessante. Eram apenas os sonhos de uma menina de quinze anos. Mas também os sonhos de uma menina que nasceu extremamente teimosa e que nunca desistiu do que já tinha decidido. Até que precisei de esperar anos para atingir o meu objectivo. Na vida cheia de decisões para tomar é melhor decidir sobre algo de uma vez por todas e trabalhar para atingir esse objectivo – isso significa menos problemas e menos dúvidas.


Nessa altura, quando tinha quinze anos, ainda não estávamos na era da internet. Não podia ligar o computador e pesquisar facilmente sobre sites escritos em português. Além disso, não tinha dinheiro para aprender uma língua tão exotica como o português. Sim, tenho impressão que ainda hoje, depois de mais quatorze anos, o coreano ou o japonês são muito mais populares do que o português. Parece ser incrível, mas é a verdade: em geral na Polónia não há grande necessidade de se aprender esta língua. Porquê? Não sei.   

Embora viva numa das maiores cidades da Polónia, não consegui começar nenhum curso de português numa escola de línguas. Os cursos do meu nível, que ainda não está muito avançado, não se abrem, nem abrirão. Há vários cursos interessantes, mas só nas cidades onde funcionam as faculdades de língua portuguesa e não são tão perto da minha região. Talvez seja mais fácil aprender a versão brasileira. Uma coisa é certa: aqui (quando não se vive em Warszawa, Kraków, Lublin, Poznań ou em outra cidade onde o acesso às aulas de português é mais fácil) quando se quer, pode-se aprender português, mas precisa-se de ter uma vontade real. Caso contrário, é fácil desistir das procuras que as vezes exigem muito tempo.   

Contudo, ultimamente tenho visto uma mudança na questão profissional. A Polónia é um país que se está a desenvolver. Portanto a cada ano surgem mais empresas internacionais nas quais se constroem equipas que falam uma língua específica, entre outros o português. Espero que um dia no futuro consiga trabalhar numa delas.   

Sabem, os sonhos das pessoas teimosas as vezes realizam-se. 

Com uma determinação nos olhos

Escrito por 17.10.16
Portugal, 2009

Não me lembro muito bem se era ele ou ela. Aliás, nem sempre é fácil reconhecer o sexo quando a criança tem mais ou menos seis anos. A única coisa que ainda – depois de sete anos – está viva na minha cabeça são os olhos dele. Ou dela. Os olhos grandes. Os maiores olhos que já vi na minha vida. São estes os quais tem o gato do Shrek são maiores mas o gato desenhado é nada mais do que uma ficção. A criança era verdadeira. E estava a olhar para mim com os seus olhos enormes e castanhos. E com ambos uma tristeza profunda e determinação neles...


– Dê-me um papel, se faz favor – pediu a criança.
– Humm? – não entendi.
– Um papeeeel, por favoooor – a tom da voz tornou-se drastico.
– Nie rozumiem, przepraszam (Não entendo, desculpa).

Mas a criança não queria desistir. Estava na minha frente e nem pensava em se ir embora. A cada segundo ficava mais e mais determinada.

– Papeeeeeel, dê-me papeeeeeeeel – implorava.

A sério, já consegui reparar que o assunto é grave mas não fazia nenhuma idea, como é que eu podia ajudar. Habituei-me às situações como assim: estar na terra onde se fala uma língua totalmente estrangeira para mim e encontrar lá as pessoas que falam só esta língua. A maioria deles não tenta mostrar com gestos o que é que quer de mim, nem fala sobre isso noutras palavras, talvez mais reconhecíeis. Em vez disso repete teimosamente o mesmo cem vezes, mais alto ou mais devagar. E eu continuo sem entender nada. E sorrio envergonhada.

Mas está situação era diferente. Sabia que a criança precisava de algo de mim e só EU é que podia resolver o problema dela. Mas só Deus sabia o que é que ela estava a repetir tantas vezes. Então ficávamos cara à cara sem a mínima compreensão uma de outra.

Finalmente o desespero da criança tinha crescido até ao nível máximo e, de repente, inventou a maneira para eu entendê-la. Disse:

– Um papel – e mostrou um rolo de papel higiénico que se encontrava na minha mão.
– Aaaaaah – finalmente percebi.
– Masz, trzymaj (Toma, segura) – dei-lho.

A criança, feliz, correu à casa de banho.


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Tudo aconteceu quando estava em Portugal pela primeira vez. Apenas por uma semana, sem saber falar. Embora a ideia de aprender português nasceu quando tinha 15 anos (sete anos antes da história com a criança), a decisão real foi tomada apenas quando voltei desta primeira viagem. Apesar de ter, desde então, mais pausas do que o tempo da aprendizagem, já sei o que significa a palavra “papel”.
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