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O inverno em Portugal e na Polónia

Escrito por 8.12.17
Não por acaso esta época do ano chama-se «Inverno». A similaridade com «o inferno» é obvia. E não por causa da temperatura. Não, não, não. Quem vive na Polónia, sabe bem que neste país durante o inverno a última coisa que se pode esperar é o calor tropical. Aliás, em Portugal também. No entanto, o inferno pode significar mais do que só temperatura alta. O inferno começa na cabeça enquanto o inverno está a chegar.  

Tanto em Portugal como na Polónia passar o inverno não é nada fixe. É tão ruim e tão ruim. Em qualquer lugar que estejas, deves lembrar da tua fragilidade que aparece – num instante – em contacto com o frio. A única diferença entre estes dois países é que passar o inverno em Portugal é mais fácil fora e na Polónia – em casa. 

Já chegou. Está a nevar na Polónia. Flocos de neve caem com alegria cobrindo a terra com uma colcha branca. E sim, tenho que admitir que isso parece bonito – até ficar em casa e não precisar sair dela. Infelizmente, ficar em casa com o bebé de nove meses de idade que tem sempre as baterias carregadas e sem parar quer subir a tudo também não é nada fácil. Então saímos. 


Começo a vestir-me quatro camadas de roupa. Enquanto faço isso tento vestir simultaneamente o meu filho. Ele chora. Eu tento alimenta-lo. Ele chora – não está com fome. Simplesmente não gosta de se vestir. Nem gosto eu. Ele chora mais alto. Visto a quarta camada da minha roupa. Volto a vesti-lo. Ele chora. Começo chorar e eu. O suor está a escorrer pelo meu nariz. Ainda o casaco dele. E luvas. E sapatos dele. E os meus sapatos. Choramos ambos... Finalmente está tudo feito. Depois 50 minutos de preparações estamos prontos. Lá fora o vento frio faz-me lembrar que estou suada e que logo posso ficar constipada. Corro um risco.

Com calma. Sem miúdos não é nada melhor. Apesar de que vestir só dura 10–15 minutos, o vento sopra na mesma maneira. A rua está igualmente escorregadia. Além disso, tráfego nas estradas está paralisado, mãos congelam em 30 segundos, o sol se põe às 15.00 e a única coisa sobre o que se sonha é adormecer em um sono de inverno numa casa quente. 

Ao contrário em Portugal. Lá durante o inverno não existe até o conceito da “casa quente”, muito menos a casa quente materializada. Já sei que para não congelar durante a noite em casa portuguesa deve-se ou ter um saco-cama de penas ou conhecer bem a técnica de se envolver firmemente em cinco cobertores. Não me sinto muito convencida com a ideia não ter nem metade de um aquecedor só porque o inverno em Portugal dura menos do que, por exemplo, na Polónia. Ou porque é menos suave: isso não é verdade. Em Portugal humidade é maior, o que de fato faz que muitas vezes senti-me lá como estivesse no frigorífico. Congelar na sua própria casa é uma forma de se mortificar, definitivamente.

Então – o que escolho? O verão.





Os portugueses aos olhos da Anita. Parte 2: Relaxa!

Escrito por 6.11.17
Quando fico nervosa e começo fazer uma tempestade num copo de água, quando todo o mundo me irrita por pouca razão, os portugueses não respondem à mesma irritação. Dizem só uma palavra: relaxa!

Apesar de morar na Polónia fria, ao lado dos ursos polares, esquimós; na Polónia cujas casas têm que ser equipadas com aquecimento por causa das geadas do século, sou muito mais impulsiva do que todos os portugueses que eu conheço. A sério! Talvez não conheça um grupo suficiente representativo da sociedade portuguesa, se calhar também não é tão difícil estar mais relaxado do que eu. Mas aos meus olhos em Portugal vive um povo muito relaxado. Muito mais do que em qualquer país da União Europeia. 

Devia dizer que isso é muito bom: menos stress é igual a ser mais saudável, feliz e tal. Devia. Contudo, quando se está a esperar por uma reação dinâmica, por uma explosão de gestões e palavras e vê-se em vez disso um oásis de paz, a primeira impressão é... uma grande surpresa. 


Um dos meus professores contou a história da sua juventude. Ele vivia entre dois bairros, cujos os seus habitantes não gostavam muito uns dos outros e os jovens tinham lutas frequentes lá. O professor abomina a luta, portanto jamais queria participar em nenhuma. Mas nem tudo pode ser evitado. Uma vez ele estava a ir à biblioteca, quando alguns inimigos de outro bairro apareceram.

Queres lutar? – perguntou um deles.

O professor respondeu sem pensar:
Está bem, podemos. Mas primeiro diz me quando ocorreu a batalha sob Chocim?

Inimigos foram embora.


Fiquei similarmente surpreendida, quando vi os portugueses relaxados a esperar horas por alguém atrasado (já escrevi sobre pontualidade aqui: link), a preparar comida sem pressão mesmo que estejam cheios de fome, a voltar para casa no meio da noite embora tenham que se levantar cedo ou tenham imenso trabalho para fazer, a não ter a certeza o que é que vai acontecer no próximo dia, a ter sempre tempo para conversar, beber café ou cerveja, para viver devagar. 

Relaxa! – esta é definitivamente uma das palavras mais frequentes que ouvi em Portugal.

Os portugueses aos olhos da Anita. Parte 1: pontualidade

Escrito por 10.10.17
O que é que podia fazer ao esperar por alguém que está atrasado? 
A. Olhar para frente e observar as pessoas a andar. 
B. Ouvir as conversações dos outros.
C. Ler um livro / brincar com smartphone. 
D. Nada.

O que é que eu normalmente faço?
E. Estou a olhar nervosamente para o relógio e fico mais nervosa com cada minuto que passa. As 10.00 são 10.00, não 10.15, 10.30 ou 12.00. 

Um mês em Portugal mudou muito esta perspetiva. 

A primeira coisa que aprendi lá era que – em geral – combina-se uma hora de encontro só porque existe o conceito de tempo e a terminologia para o explicar e especificar. Então: se eles existe, não custa nada utilizá-lo, pois não? O que é importante, às vezes pode ser até útil, por exemplo para precisar mais ou menos em que período do dia um encontro pode acontecer. Combinamos às 16.00? Ótimo! Isso significa que provavelmente vamos encontrar-nos a uma hora qualquer depois das 16.00, provavelmente não antes das 17.00. Mas talvez também não depois das 20.00. É fácil, não é? 


No início a minha cabeça limitada por contar o tempo com segundos não podia concordar com esta confusão, esta falta de ordem. Ou seja: a impaciência que me fez muito irritada não me deixava de tentar entendê-la (já escrevi sobre impaciência: link). Como é possível estar sempre atrasado e sempre bem disposto ao mesmo tempo? E nunca pedir desculpas pelo atraso? Contudo, apesar de não gostar nada disso, rapidamente percebi que para o meu bem tenho que me adaptar a isso. Se o mundo não se vai mudar para mim, sou eu que tenho de me acostumar a ele. Logo então comprei alguns livros, comecei vir aos encontros atrasada por meia hora e o tempo que ainda faltava para a chegada dos amigos  passava a ler. 

Toda a percepção de tempo em Portugal, que eu conheci, em geral parece diferente do que na Polónia. Há o tempo, mas os limites dele são muito mais... flexíveis. Não se o conta tão restritivamente, com tanta pressão. Quando a festa em Portugal começa, na Polónia acaba. Especialmente no meio da semana, no meio do inverno (os estudantes são uma exceção). Todos têm o tempo mesmo que ninguém o conte. Ou não contar significa simplesmente ter.
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